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Melissa, Gates E Milosevic

Depois de duas semanas de pânico induzido pela mídia e apocalípticos de plantão, chegou ao fim dia 1º de abril –ah, data sublime!– a meteórica carreira solo de Melissa. Ela foi definida seguidamente como “peste”, “criminosa”, “desastrosa” e “caótica”, mas a verdade é que, preso Mr. David L. Smith e construídos alguns patches de software, tudo volta à banalidade cotidiana. A história da vida de Melissa é tão boba e enfadonha que sequer seu episódio mais picante –a possibilidade de seu nome ser uma homenagem à mulher de Bill Gates– se mostrou real. Ao contrário, esse corolário da banalidade corretamente nomeado Mr. Smith homenageou uma dançarina de topless ao batizar sua diabólica criaturinha.

Agora que as primeiras-páginas dos jornais voltam a esquecer o episódio e as listas de emails aterradores de internetas inocentes voltam seus olhos em direção a novas catástrofes, vale a pena gastar um quantum de energia que seja com tão encerrado assunto? Muita gente acha que sim. Já lá estão se postando de donos da verdade os “analistas” de sempre, e chegando às conclusões óbvias também de sempre: que a rede não oferece segurança, que os administradores podem ter seus servers de milhares de dólares derrubados por um sopro e que qualquer imbecil prende e arrebenta quando bem entender o computador de qualquer interneta, doméstico ou corporativo. Okay, eles precisam vender seus sistemas de segurança, que, por falta de opção, vão aos poucos se transformando em verdadeiros táticos móveis voando com suas sirenes policiais rede adentro. Mas é só isso que se aprende com a extravagância de Mr. Smith e de sua prostitutazinha nética?

Ao contrário, Mr. Smith tem muito mais a ensinar. Desde que Ernest Jung passou pela humanidade, felizmente, já não há razão para se acreditar em coincidências. Por isso é possível afirmar que Milosevic e Melissa têm muito mais em comum que um punhado de letras: ambos simbolizam alertas contra o totalitarismo. No primeiro caso, de um demente que vem sendo mantido em banho maria há anos, ele e seu atávico gosto por massacrar pessoas simplesmente porque…porque sim. E ela, Melissa, por mostrar na prática o que significa o monopólio do império Gates.

Existisse diversidade e Melissa nada mais seria que uma piada. Ela afinal só age se você usa um emailer Microsoft, um editor de textos Microsoft ou uma planilha Microsoft. Quem não tem o primeiro e pelo menos um dos outros dois não corre risco. O problema é que são cada vez mais raros os que não se dobraram à força do monopólio. Esse é o verdadeiro escândalo Melissa.

Claro que o problema não está nos produtos e tampouco na companhia de Gates, que chegaram onde chegaram por competência própria e incompetência alheia. Mas o fato de IBM ou Digital ou Apple terem sido incompetentes em peitar o império Gates justifica o monopólio mundial de produtos Microsoft? Quem está no momento melhor aparelhado para julgar são os prejudicados por Melissa e por Papa, primeiro filhote da moça.

Mas essa profetisa do caos está aí a indicar que piores dias virão. Tudo bem: mesmo que a Microsoft deixe de reinar sozinha. O que o totalitarismo gateano faz é aprofundar o processo e torná-lo mais próximo, palpável.

A Microsoft é uma grande árvora frondosa que não pára de lançar novos galhos. Ela naturalmente impede que qualquer coisa nova nasça. Não se pode esperar, porém, que uma árvore corte seus próprios galhos. Várias megacorporações já foram obrigadas a se subdividir. O mercado de telecomunicações, que vive um longo período de crescimento e inventividade em todo o mundo, era há uma dezena de anos formado por um punhado de monopólios nacionais ou regionais. A desregulamentação foi ruim para o setor? Bem, a AT&T e as Bells parecem provar que não.

Talvez seja realmente o momento de todos começarmos a pensar no que perdemos ao viver sob o domínio da unicidade. Só para lembrar: se dependesse dessa bela árvore que Gates engendrou, a Internet não seria hoje um oitavo do que é. A companhia de Seatle só prestou atenção à rede quando foi obrigada a isso. Talvez Melissa, Milosevic & cia sejam realmente bons avisos de que há algo essencialmente errado. Que a imaginação tem de voltar, se é que algum dia esteve lá, ao poder.