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Voz Aos Adolescentes!

Não sou educador embora tenha nascido em uma família pródiga em produzi-los, pelo que me sinto geneticamente pronto a discutir o que seja a respeito de educação e, ao mesmo tempo, tenho ganas de não o fazer nem sob tortura. Minhas reticências a respeito não são simbólicas ou pudicas: talvez por ter visto em excesso o lado de dentro da indústria brasileira da educação tenda a ter idéias um tanto bruscas a respeito. Mas penso também que por vezes não há nada como a brusquidão para remexer em terrenos sacralizados –como é o da nem tão recente “onda” de violência nas escolas públicas.

Primeiro porque não há nada de recente na contaminação das escolas governamentais pela violência do entorno. A situação vem se desenhando há anos e seus traços mais enérgicos já podiam ser vistos em 98 ou 97. Só acredita que a “onda” é recente quem também acredita nos temas da moda da mídia. E esta é a bola da vez, seguramente. Ganhou as primeiras páginas dos jornais, ocupando espaço que há semanas era usado para o vírus Melissa. Alguém mais ouviu falar no Melissa? Pois bem, ele continua existindo fora da mídia.

Seja como for, esta não é a única distorção referente à “onda” de violência. Outra é a que olha o problema como “escolar”. Não, é muito maior e paradoxalmente menor que apenas escolar –é maior por se tratar da contaminação das escolas pela violência que permeia as relações entre as pessoas em cidades de quaisquer portes deste país desde meados da década de 90. E menor porque no momento o fenômeno, por mais não se queira, restringe-se a escolas públicas. Óbvio, são as que atendem aos pobres e, outro paradoxo, onde o governo em louvável esforço conseguiu fazer ingressar também fileiras de miseráveis através da aplicação de políticas –repito, louváveis– como o Bolsa-Escola, que “compra” o estudante ao mercado de trabalho infantil. Com certeza esse processo auxiliou a acelerar a contaminação da escola pela violência social –não é segredo para ninguém que, quanto mais da base da pirâmide social, menos aculturados e afeitos às lides civilizadas são os humanos. E não me falem em bons selvagens, pelo amor de todos os deuses.

Mas seria só isso? Claro que não. Há, como em todas as questões, dezenas ou centenas de variáveis assoprando a chama da violência que se instala, aliás confortavelmente, no meio das classes. A polícia pode dizer o que quiser, mas sua incompetência é uma das variáveis. Não somente a incompetência em manter as crianças a salvo nos colégios, mas aquela que a leva a não conseguir limitar por exemplo os assassinatos em uma cidade como São Paulo –são de 40 a 70 por fim de semana, muito pior que qualquer erro da Otan em Kosovo. Há também a culpa desta visão tacanha que permeia a legislação brasileira –a mesma que esconde adolescentes assassinos atrás de siglas e os “protege” das celas através da Febem. E existe mais um caminhão de motivos se abrindo de par em par.

Soluções? As pessoas discutem a questão da violência há anos e ela só faz crescer. Fala-se demais para não agir nada. Ou para fingir que se age. Exemplo cristalino: os detetores de metal nas escolas, ou, melhor dizendo, o primeiro passo rumo à militarização das escolas. Só quem não conhece os prédios das escolas públicas pode supor que tal medida seja eficaz. São escolas sem muros, ou com muros saltados o tempo todo por estudantes ou quem queira. Com portões arrombados ou arrombáveis. Usa a porta principal quem e quando quer. O detetor pode ser um símbolo, jamais uma solução.

Mas o que talvez seja o principal ponto falho das tentativas de solução ao boom da violência é que os principais atores não estão sendo ouvidos. As soluções externas, impostas de fora, não vão funcionar se as crianças e adolescentes continuarem sendo desprezados. É deles que nasceu o problema e é neles que reside a solução. Isso parece fugir à compreensão da maior parte dos educadores, que, embora tenha chegado ao fim do milênio e incorporado o discurso da pós-modernidade educacional, continua lá no fundo da alma abrigando um catedrático do século 18: aluno não tem opinião e, se tem, só pode ser ouvida como curiosidade.

A idéia romântica que vê o adolescente como inocente, violento ou inexperiente, como alguém que deve ser “colocado em seu lugar”, não é apenas do educador, e se espalha igualitariamente por uma parcela considerável dos pais, juízes, policiais, políticos e assim por diante.

Com ela em jogo, qualquer “solução” para a violência nas escolas vai ser um remendo pronto a se esgarçar. E, Freud já ensinou, tensão recalcada volta dobrada.