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Petrobrás E Derramamento De Óleo, O Que Fica Exposto

O primeiro sinal de vida na Terra surgiu há aproximadamente quatro bilhões de anos e, desde que a espécie humana apareceu, nenhum homem nem as sociedades e organizações por ele criadas conseguiram sustentar-se sem riscos. As consideráveis vantagens materiais e sociais obtidas por meio do uso das tecnologias sempre foram acompanhadas pelo surgimento de riscos que, de maneira cada vez mais alarmante, ameaçam a qualidade de vida e, não raramente, a própria vida dos seres humanos. Agora, com toneladas e toneladas de óleo se espalhando pela águas e terras brasileiras, discute-se tudo neste momento crucial, até mesmo o valor das multas aplicadas e a possibilidade de "apenamento" prisional para os envolvidos. Especula-se se a ocorrência foi o resultado de falha humana ou do uso de equipamentos inadequados para a garantia da segurança ambiental.

Ao analisarmos os resultados das investigações de quinze grandes ocorrências ambientais em todo o mundo, concluímos que as falhas responsáveis por elas estão associadas a quatro fatores principais, a saber: tecnologia, sistemas de gerenciamento, fatores humanos e agentes externos. Como resposta e solução de prevenção, na maioria das vezes, as indústrias têm-se preocupado com a confiabilidade de seus equipamentos e investido em melhores tecnologias. Porém, continuando a análise, percebemos que as causas que precedem essas situações residem no erro humano e na falta de sistemas de gerenciamento de riscos adequados.

Na verdade, no decurso de um processo operacional deve-se levar em conta que os sistemas industriais atuais, apesar de altamente automatizados, continuam dependentes do desempenho humano em diversos aspectos. Portanto, o desconhecimento dos riscos associados ao uso de novas tecnologias e a não observância da velocidade com que determinadas ações devem ser tomadas frente a problemas operacionais conduzem ao aumento da probabilidade de falha humana, podendo comprometer o bom andamento operacional e resultar em acidentes catastróficos, com elevadas perdas tanto materiais quanto humanas.

A proposta apresentada neste artigo avança no sentido de recordar que existem maneiras eficientes e práticas para a minimização de riscos industriais, ressaltando-se, no entanto, que em todas o elemento humano deve ser incluído de sorte a auxiliar empresas na melhoria de seus aspectos operacionais e na redução de perdas decorrentes de incidentes ou acidentes que prejudiquem as metas estabelecidas pela organização. Com esse propósito, é necessária a integração das características prevencionistas apresentadas pela Gerência de Riscos, em especial utilizando-se uma técnica de Análise de Riscos industriais, apoiada pela valorização e treinamento individualizado dos empregados. Vemos, então, que uma missão para Gerência de Riscos passa por aceitar que esta é a ciência, a arte e a função que visa à proteção dos recursos humanos, materiais e financeiros de uma empresa e o seu entorno quer por meio da eliminação ou redução de seus riscos, quer por meio do financiamento dos riscos remanescentes, conforme seja economicamente mais viável.

Portanto, o gerenciamento de riscos busca a diminuição de erros e de falhas e o estabelecimento de planos de ação de emergência para a mitigação de acidentes em todas as frentes e alcances, não se restringindo ou delimitando o seu campo. O tema risco é complexo e não se deve esperar imediatamente nem avanços e nem aceitação plena das responsabilidades empresariais, até porque são vários os conceitos de risco e nenhum deles é aceito universalmente. Assim, os significados associados a essa palavra diferem, tanto semântica quanto sintaxicamente, em função de suas origens.

Segundo Wharton a palavra risq, em árabe, significa algo que foi dado (quase sempre por Deus) e do qual se tirará proveito, possuindo um significado de inesperado e favorável ao indivíduo. Em latim, riscum conota algo também inesperado, mas desfavorável ao indivíduo. Em grego, uma derivação do árabe risq, essa palavra relata a probabilidade de um resultado sem imposições positivas ou negativas. O francês risque tem significado negativo, mas ocasionalmente possui conotações positivas, enquanto, em inglês, risk possui associações negativas bem definidas. Portanto, a palavra risco pode significar desde um resultado inesperado de uma ação ou decisão, seja este positivo ou negativo, até, sob um ponto de vista mais científico, um resultado não desejado e a probabilidade de sua ocorrência.

Resgatamos essa literatura para facilitar a observação das duas tendências claras na definição de risco, uma abordando o risco objetivamente e outra subjetivamente. Do ponto de vista objetivo, o risco representa a probabilidade de ocorrência de um evento indesejável e pode ser facilmente quantificado por medidas estatísticas. Sob uma visão subjetiva, o risco está relacionado com a possibilidade de ocorrência de um evento não desejado e depende de uma avaliação individual sobre a situação, sendo, então pouco quantificável.

Lamentavelmente, ainda que todos os indicadores apontem para o fato de que 2/3 dos incidentes e ocorrências são resultados de erros humanos e de desmotivação, esses fatores não eram considerados, até pouco tempo, como fatores de risco significativos dentro de um sistema industrial. Trata-se a "causa máquina", esquecendo-se o fator humano, mesmo considerando que, em determinada indústria, quando um alarme toca, é um operador humano quem necessita fechar uma válvula dentro de um certo espaço de tempo. As confiabilidades do alarme e da válvula são normalmente conhecidas e, dessa forma podem-se prever as suas probabilidades, no entanto será que o operador realmente irá fechar a válvula no espaço de tempo disponível? Ora, sabemos que o comportamento humano nem sempre é constante e racional, e, assim, não segue padrões rígidos preestabelecidos. Logo, é importante crer que o fator humano pode influenciar de maneira substancial a confiabilidade de um sistema e as perdas decorrentes de não conformidades, acidentes e incidentes, não podendo ser negligenciado.

Essa necessidade de caracterização do erro humano se torna ainda mais evidente nos sistemas industriais modernos, pois, segundo De Keyser, esses sistemas, principalmente quando baseados em processos contínuos, apresentam características de sistemas complexos, ou seja, de sistemas com diversas variáveis que interagem e evoluem rapidamente com o decorrer do tempo. Esses ambientes com características dinâmicas englobam uma grande quantidade de situações que apresentam dois aspectos essenciais, conforme salientam Rogalski e Samurçay. Por um lado, eles evoluem com o tempo conforme sua própria dinâmica e as variáveis envolvidas no sistema são temporais. Por outro, eles não podem ser tratados pelos operadores como uma sucessão organizada de transformações e de estados discretos. Nesse sentido, Dubois, Fleury e Mazet afirmam ainda que todo processo dinâmico é realizado sob fortes pressões de tempo. Portanto, este conjunto de características, intrínseco aos sistemas industriais modernos, eleva a possibilidade de erro humano e, conseqüentemente, os próprios riscos operacionais.

O derramamento de óleo provocado pelo rompimento das tubulações da Petrobrás mostra muito mais que a fragilidade de uma tecnologia, ou a necessidade de se trocar de civilização; mas expõe de maneira inequívoca, que a empresa está sujeita a um conjunto de condições humanas (riscos) que anunciam a sua predisposição à desordem. Portanto, pensamos que, ao lado das providências de toda a ordem que devem estar sendo implementadas, é preciso ler os indicadores que precedem a falha do sistema. Nesse caso, com essa finalidade, é de suma importância o conhecimento profundo sobre os riscos presentes dentro do sistema industrial Petrobrás para que seja possível reduzir-se a probabilidade de que novas ocorrências se façam presentes.

Os estudos recentes demonstram que a ocorrência de erro humano é agravada principalmente em indústrias onde estão reunidas umas séries de condições, tais como:

não há reconhecimento da importância do fator humano para a prevenção de perdas e danos à propriedade.
não existem regras a serem seguidas e as responsabilidades de cada indivíduo não são claramente definidas.
o indivíduo desconhece os riscos e as ações corretas a serem tomadas frente às variações do sistema.

Assim sendo, neste estágio do desenvolvimento industrial brasileiro, não se trata de trocar a civilização, prender ou cobrar pesadas multas que, em última instância, toda a população vai pagar, e sim aprimorar a consciência sobre os riscos operacionais, incluindo na variável tecnológica as medidas de treinamento adequadas para funcionários e empregados. Vale salientar que, apesar do treinamento nem sempre auxiliar na redução da incidência de erros humanos, aumenta a sensibilidade quanto à sua identificação, elevando a probabilidade para que sejam corrigidos a tempo. Nesse sentido a frase do matemático Hadamard é de extrema atualidade: "Ao fazer cálculos matemáticos, cometo tantos erros como qualquer estudante neófito. A única diferença é que sei quando cometo erros e os corrijo a tempo, não deixando que eles influenciem no resultado final".

| Fernando Antonio Dal Piero é professor no Centro Superior de Vila Velha, Espírito Santo - U.V.V. (Revisão de Alina da Silva Bonella - fone 02127 327 1518) |