PRVW

PRVW

Operando desde 1986 no mercado de Jornalismo Empresarial e online desde 96, a Preview é a mais antiga empresa brasileira exclusivamente voltada ao fornecimento de conteúdos jornalísticos para new media. Fornecedora de empresas como J.P.Morgan, GE-Dako, LG Electronics e Folha de S. Paulo, entre várias outras, a Preview conta com uma equipe de redação em São Paulo, além de correspondentes no País e Exterior.

A Aldeia E O Fraternal Cidadão Global

por Mauricio Bonas

Tempos atrás um amigo me disse, sombriamente, que vivíamos o fim da civilização. Tudo, argumentou, vem sendo diligentemente destruído –e o que se constrói no lugar dos escombros é pior do que o que havia antes. As pessoas, disse-me ainda, são mais mesquinhas e não dão a mínima ao que ocorre ali ao lado. Quando converso pela internet com um ser sentado à sua mesa em Hong Kong não estou me aproximando dele, mas me afastando do meu vizinho, disse por fim o amigo, sonhando com a volta aos “tempos simples” em que se podia dormir de porta aberta na pequena cidade isolada de um mundo formado por pequenas cidades isoladas umas das outras.

Não respondi grande coisa na época, o que tento fazer agora. Ia simplesmente enviar um email, mas ontem recebi uma mensagem carregada de ódio a respeito de uma nota que publicamos. Ela continha todo o tipo de idéias extemporâneas, mas o básico era o não-escrito, as entrelinhas, onde o missivista também louvava os “velhos e bons métodos” em detrimento de novos. “Não vou acreditar em mais nada que vejo em sites”, dizia a certa altura, “prefiro a biblioteca pública da minha cidade”.

Coincidências? Não creio nelas. Por isso respondo a meu amigo, e a seus tributos à vida simples da aldeia, em público.

Antes de mais, deixe-me dizer que desprezo a aldeia. A aldeia não contém a fraternidade possível da globalização –aquela fraternidade que, embora muitos não acreditem, vem tornando os diferentes grupos de humanos menos sensíveis em relação a outros. A aldeia é a casa-motriz da xenofobia.

Um conhecido certa vez me disse fascinado, depois de passear por uma pequena cidade no interior brasileiro, que havia contado pencas de lojas, pequenas indústrias e escolas cujos nomes continham parte ou totalidade do nome da cidade. Quando perguntou aos nativos se haviam observado aquele curioso detalhe, deram de ombros. Para eles, é natural agarrar-se ao próprio umbigo, temerosos que são de tudo que é estranho, “estrangeiro” ou fora dos rígidos padrões informais da vida auto-referencial da aldeia. É a contramão da fraternidade global, que não tem apreço especial por fronteiras formais ou apego a detalhes cuja significância é meramente local. O local do cidadão globalizado é o mundo. A cultura xenófoba da aldeia, para ele, é o verdadeiro estrangeiro. O cidadão do mundo não reconhece –não quer ou sequer consegue– o microcosmo do racismo clássico, esse dileto filho da xenofobia da aldeia, que diz “não gosto” ou “odeio” qualquer um que aja de forma diferente da sua.

Há um tremendo valo entre o filho do mundo e o filho da aldeia. Um amigo de minha mulher, ao deixar a cidadezinha em que passou todos seus 24 anos num isolado vale da Sibéria, comentou que no cosmopolita aeroporto de Frankfurt havia todo o tipo de gente, especialmente “pretos, índios e muitos inclassificáveis”, tomando o mesmo vôo que ele, em direção ao Canadá. O homem de aldeia classifica os outros pelo que vê. O do mundo, ao contrário, pelo que conhece do outro.

Em Frankfurt, disse ainda o observador siberiano, “todos eram normais, exceto nós”. Que queria dizer? Que estava envergonhado de sua situação de aldeão –a mesma reação que gerou, guardadas as proporções, alguns dos grandes desastres humanos no século 20. O aldeão assustado tende a retornar à aldeia e a se trancar. Tranca-se a idéias, a diferenças, a “estranhezas”. O ser fraternal que nasce da globalização gosta da estranheza. Aprecia a idéia, mesmo que remota, de mudar-se para uma região distante com língua e costumes diferentes, sabores e clima desconhecidos. Fascina-o a diferença. Ele não entende, no fundo de sua alma, as tarifas aduaneiras e as taxas extras para ligações internacionais. Não consegue sentir o que sentiam os combatentes da segunda guerra mundial, de quaisquer lados da contenda. Despreza o nacionalismo, esta soma das fraquezas e medos do aldeão a que deram cores brilhantes, hinos e bandeiras na tentativa de fazer crer que se trata de soma de forças.

O fraternal cidadão global (mesmo aquele que mora em uma aldeia) despreza inclusive símbolos subjacentes à cultura do nacionalismo e da exclusão: aqui no Brasil, algumas das amigas das minhas filhas simplesmente aboliram o uso da acentuação nas palavras e não atendem senão como concessão menor a aqueles que, como os professores de português, insistem que acentos fazem parte da língua. Não, não fazem mais. Acentos são sinais discricionários, em certo sentido. Embora não reflitam para chegar a esta prática, as adolescentes agem assim –e isso é o que importa. Pensar nos termos da aldeia, nos orgulhosos termos da aldeia, levou os humanos a 20 anos de guerras sinistras no sudeste asiático. Que egos monstruosos moveram-se para provar a superioridade de uma aldeia em relação a outra! Mas do que se falava então, no que se pensava? Era justamente nos acentos, nas pequenas diferenças entre você e eu. Não estou falando nos motivos mediatos de guerras na Coréia ou Vietnã, naturalmente, mas naquilo que os originou dentro da alma dos humanos.

A aldeia acredita mesmo que “o idioma é minha pátria”. Sim, era. Não é mais para um conjunto formidável de pessoas, felizmente. Minha pátria são os humanos e suas pequenas diferenças. As grandes, aquilo que os retardatários se horrorizam de estar sendo destruído pela globalização, já vai tarde. Antes a massificação do McDonald’s que a diferença entre a feijoada do Rio e a de São Paulo. Percebe a que nível de sutileza chega a louvação da cultura da aldeia à diferença entre o MEU aldeão e o SEU? Por que diabos se importar com o fato de ir paio em uma mistura de feijão e linguiça calabresa em outra?

E já que o demônio se imiscuiu, que ser mais aldeão há do que ele? As religiões em sua maioria, com suas práticas discricionárias e seus paraísos restritos a quem as seguiu em vida, nada mais são que pobres corolários de um mundo cercado de fronteiras sem nenhum sentido prático senão o de louvar o passado (este passado em que vive a guerra dos 100 anos, em que 90% dos paraguaios homens foram massacrados, em que dezenas de milhões morreram em guerras mundiais). O paraíso das religiões que excluem os “estrangeiros” é, pensando bem, o domínio do que elas mesmas chamam de Mal, de demônio. O cidadão do mundo globalizado ama a Zeus, a Deus, a Maomé, a Iavé, a Buda e a Krishna, ou os despreza a todos, sem que isso o leve aos templos em busca de forças para derrotar o inimigo. Quantas igrejas, meus deuses, quantas foram usadas pela alma miserável dos que vieram antes de nós para rezar pela destruição de outros humanos? Que tipo de deuses são estes? Pequenos deuses da discórdia e das fronteiras, da vingança e do ódio, são tão desprezíveis quanto o pequenino ser da aldeia tremendo em sua esquina ensolarada pelo pavor do novo.

O fraterno cidadão do mundo anseia pelo novo e, quando treme, é por receio quanto ao que ainda podem fazer os velhos de espírito para defender o mundo decaído feito por fronteiras de línguas, de religiões e de costumes.

Por essas e outras tantas me parece inaceitável que alguém inteligente sonhe com o passado ou imagine que o futuro tal como se desenha é sombrio. Sombrio é de onde viemos. Da aldeia. Das idades médias e dos estados nacionais arruaceiros. Das igrejas que não sabem se ajoelhar. O futuro –mesmo considerando o mundo atual em crise de mudança– soa muito melhor que a desgastada parada militar contínua que ainda tanto fascina os aldeões