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O I-Commerce E a Vida Curta Dos Leilões Virtuais

por Rubens Mazzali *

Uma nova verdade científica não triunfa convencendo seus oponentes e fazendo com que eles vejam a luz, mas sim porque seus oponentes acabam morrendo e surge uma nova geração familiarizada com ela - Max Planck, Nobel de Física

É incrível como mudanças tecnológicas profundas encontram barreiras de toda matiz. Talvez sejam essas barreiras que, ao obrigar desbravadores a derrubá-las, acabam por refinar as novas idéias e a moldar um novo mundo. A história nos mostra alguns exemplos emblemáticos de inovações que, mesmo sendo concebidas em uma determinada direção de pensamento, foram absorvidas, ao menos em um primeiro momento, em direção radicalmente oposta.

Na década de 20, aos quinze anos, Wernher von Braun já participava da VfR (Verein für Raumshffahrt) ou “Sociedade para Viagens Espaciais”, inserindo seu talento nos textos ficcionais de Jules Verne. Se por um lado era nítida a intenção de von Braun em ser o “Colombo do espaço”, o mundo, anos mais tarde, absorveu sua criação para um uso pouco nobre. Foram lançadas mais de 1500 V2 contra Londres e Países-Baixos, destruindo 60000 casas, ferindo 46200 e, matando 8500 pessoas. Braun não foi passional a ponto de ter o mesmo fim de outro notável, Alberto Santos Dumont. Ironicamente, talvez por falta de coragem, talvez por excesso de perseverança ou, por apenas saber dar razão ao tempo, von Braun veio mais tarde liderar o Programa Espacial Americano e pôde colocar sua criação a serviço de seu propósito de concepção.

Esse exemplo mostra-nos que, ora circunstâncias históricas, ora falta de um melhor conhecimento das alternativas de melhores usos, ora a ignorância inocente, podem desviar por algum tempo o nobre uso de uma inovação.

Se ao final da primeira metade deste século o mundo não fazia um bom uso dos foguetes em função de alternativas mais nobres só viabilizarem-se no longo prazo, neste final de século podemos notar o mesmo ocorrer com as mais recentes tecnologias. Um exemplo bem atual pode ser visualizado pelo que vem ocorrendo com o comércio eletrônico (ou e-commerce) e suas variantes.

A Internet trouxe consigo uma verdadeira avalanche de novos recursos e meios que, à disposição das corporações mas limitados pelas restrições que o retorno de capital exige, tornaram-se verdadeiras V2 virtuais. Voltando à analogia, é muito mais fácil, mais barato e mais rápido derrubar um foguete em Londres a ter que pousá-lo seguramente no Mar da Tranqüilidade, Lua. Com o comércio eletrônico está ocorrendo algo muito semelhante. Primeiro foram desenvolvidos sites individuais, depois os chamados shoppings virtuais e mais recentemente os leilões.

O comércio eletrônico individual é aquele que atende as necessidades de uma determinada corporação. Uma organização, seja ela industrial, comercial ou de serviços, insere em seu site na Internet seus produtos com as respectivas características técnico-comerciais (desenho, foto, dimensões, características físicas, preços, condições de pagamento, etc.). Esse mesmo site agrega funções de emissão de um pedido de compra, meios de cobrança, forma de entrega, etc. O cliente (consumidor ou revendedor de tais produtos) que, por ventura tenha acessado esse site, poderá comprar quaisquer desses produtos de forma remota e automática.

Muito bem. Vejamos agora o que um consumidor fazia há algumas décadas: recebia (ou solicitava) um catálogo por via postal onde havia uma série de informações a respeito dos produtos; caso algum lhe interessasse era possível preencher ao final um formulário-pedido que seria enviado, também via postal, à empresa vendedora. Nota-se que o que mudou foi a velocidade do processo, hoje on-line. As páginas impressas foram substituídas por páginas na Internet; nossa caixa de cartas foi substituída pelo modem; o caminhão do correio deu espaço à fibra-ótica. O comércio eletrônico individual apenas tornou mais rápido o mesmo processo.

Uma tentativa de melhorar o processo foi o advento dos shoppings virtuais, sites que reúnem uma série de outros sites de comércio eletrônico. Novamente, nada diferem dos catálogos-brochura tão populares nas décadas de 50 e 60, a não ser pela velocidade das operações on-line.

A nova onda é, talvez, a mais velha onda: leilões virtuais. A origem dos leilões tradicionais remonta à idade do escambo e, sobrevive à porta do terceiro milênio por preservar os interesses das partes vendedoras. É fácil entender: o leilão possibilita o maior preço para uma oferta, favorecendo vendedores ao localizar o comprador que se dispõe a pagar o maior preço entre um determinado grupo de demandantes.

A necessidade de um retorno imediato e de baixos custos de desenvolvimento têm levado empreendedores contemporâneos a adaptarem os seculares leilões à Internet. Talvez a mesma necessidade que fez o comando nazista optar por lançar seus foguetes (também seculares) sobre cabeças britânicas ao invés de mirarem o espaço.

Qual a lógica de se realizar um leilão virtual na Internet? Buscar o preço mais alto é lógico pelo ponto de vista do vendedor, mas nada lógico pelo olhar do comprador. Leilões são instrumentos que só se encaixam em uma realidade de excesso de demanda ou, por outra ótica, de baixa oferta. Se por um lado a globalização provocada pelas telecomunicações e pelas redes de computadores equilibrou os movimentos de oferta e procura, por outro, possibilitou a democratização do acesso à informação. Já não há mais espaço para se leiloar ofertas Agora é a informação de oferta que será pesquisada pelos compradores.

Pode surgir a pergunta: ora, se leilões virtuais não possuem espaço nessa nova realidade, por que estão sendo disseminados pelo planeta? A resposta remete-nos à analogia do início deste artigo: derrubar foguetes em cabeças inglesas é muito mais fácil e barato que colocar dois americanos em solo lunar e, mais que isso, trazê-los de volta.

Já é tempo de substituirmos o “e” de electronic commerce pelo “i” de intelligent e investirmos mais no i-commerce, ou intelligent commerce. Por que inteligência? Simples: computadores estão a nossa disposição para que os processos possam ser não só agilizados, mas também otimizados. Os compradores podem através do i-commerce (ou seja lá qual for o nome que o mercado possa lhe dar) localizar as melhores ofertas e filtrá-las de acordo com os critérios de sua política de compras. Dessa forma, será comprado o produto que, dentre todos que atendem as expectativas do comprador que efetuou a busca via i-commerce, o com o menor preço. Simplesmente o oposto da proposta dos leilões virtuais e sem as restrições de um comércio eletrônico individual.

Sites que aplicam essa inteligência nos processos de compra são poucos, mas nascem alicerçados em um conceito condizente com a nova realidade. Citaremos dois exemplos que representam bem o conceito do i-commerce. Uma iniciativa na área de turismo é a do site www.trip.com. O usuário pode buscar pelas ofertas de passagens, hotéis e automóveis (locação) que se enquadrem em suas necessidades (origem, destino, horários, categorias, etc.) e que tenham os melhores preços. Já no Brasil temos outra iniciativa em um nicho específico de mercado (fabricação, distribuição e consumo de autopeças e pneus para caminhões e ônibus): o site www.transpostation.com.br possibilita, por um lado, que o usuário comprador de autopeças e pneus estabeleça toda a sua política de compras. Na outra ponta o usuário fornecedor também parametriza sua política de vendas. No meio, a inteligência do sistema faz com que o produto de melhor preço, que se enquadre nos critérios tanto do comprador como do fornecedor, possa ser adquirido. Em ambos os exemplos o que ocorre é exatamente o contrário de um leilão. Essas iniciativas pioneiras mostram que o comércio na Internet mudará muito e, o que é melhor, sempre na direção favorável ao consumidor, conforme pedem os novos tempos.

Por que participar de um leilão e pagar o maior preço se podemos encontrar a melhor oferta, o menor preço? Por que não usar o potencial dos computadores para substituir o “e-commerce” pelo “i-commerce” (intelligent commerce)? Por que jogar bombas em Londres se podemos ir à Lua? Em breve os sites pioneiros citados, em conjunto com os que chegarão, responderão ao mercado: “A águia pousou…”

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